Quando alguém se propõe a investigar algo vai, desde logo, deparar- -se com um longo caminho a percorrer, por vezes, sinuoso, deparando-se com barreiras e, nem sempre orientado.
É, pois, muito importante para o investigador que este tenha um suporte metodológico, de forma a ajudá-lo a conceber e aplicar aquilo que faz parte do objecto do seu estudo.
Segue-se um processo em investigação científica, neste caso, orientado para as ciências sociais, que serve de guia, mas não pretende limitar o investigador na sua forma de proceder mas, antes, guiá-lo na sua conduta na procura do seu próprio processo de trabalho.
As várias etapas que se descrevem funcionam como uma corrente, por onde a informação segue em duplo sentido e, uma não funciona, se não estiver ligada às outras.
O procedimento científico é composto em três actos, que englobam sete etapas a percorrer:
Os Actos:
A Ruptura
Somos confrontados, habitualmente, a pensar sobre ideias preconcebidas, preconceitos estabelecidos, teorias estruturadas e, se, por um lado, o caminho poderá tornar-se mais fácil, nem por isso é mais interessante, dá-nos somente a ilusão de compreendermos as coisas, daí a necessidade de um rompimento, formando novas ideias a respeito de algo, de forma a poder-se avançar para um vazio que gradualmente vai sendo preenchido. Engloba as fases 1, 2 e 3.
A Construção
Face à ideia nova ou fenómeno observado, é preciso dar-lhe consistência, de forma a tornar-se lógica e poder ser verificada posteriormente. É necessário que o investigador recorra a um quadro teórico de referência válido, para que a proposição tenha coerência. Engloba a fase 4.
A Verificação
A verificação ou experimentação visa testar os factos, sendo desta forma que se contribui para que a proposição seja elevada a estatuto científico. Engloba as fases 5, 6 e 7.
As Etapas:
Etapa 1 – Questão de investigação ou pergunta de partida
É o início e o enunciar do projecto científico por parte do investigador ao exprimir exactamente o que procura saber, tornar mais claro, e compreender melhor, feito através de uma questão de partida. É necessário que a pergunta seja bem formulada e para isso deverá ser:
Clara: ser exacta, formulada de uma forma sucinta, inequívoca, de forma a ser interpretada por todos da mesma forma;
Exequível: deve ser realista, tendo em conta os conhecimentos do investigador, o tempo, dinheiro, e meios, para que possa permitir respostas válidas;
Pertinente: ser adequada e relevante, própria para o fim em vista.
Etapa 2 – A Exploração
Depois de formulada a pergunta de partida é necessário explorá-la, recorrendo a:
Leituras: vão permitir ao investigador tomar contacto com outros trabalhos já efectuados sobre o projecto de investigação em curso, e situar-se em relação a estes, do que é próximo e novo na sua abordagem. A escolha das leituras deve ser feita em função de critérios precisos:
· “Devem estar relacionadas com a pergunta de partida”,
· “Ter uma dimensão razoável do programa”,
· “Elementos de análise e de interpretação”,
· “Abordagens diversificadas”,
· “Períodos de tempo consagrados à reflexão pessoal e às trocas de pontos de vista”,
· “A leitura deve ser feita com a ajuda de uma grelha de leitura adequada aos objectivos pretendidos”
· “Resumos dos textos estudados com destaque às ideias essenciais e compará-los entre si”.
Entrevistas exploratórias: completam as leituras, permitem ao investigador o contacto com a realidade”real”/empírica que conduzindo-o à realidade da razão/ cognitiva levando-o, posteriormente, à acção. Rompendo com ideias pressupostas e pré-noções, permite-lhe uma maior reflexão e amplitude face ao objecto de estudo. Para que esse procedimento decorra de uma forma fluida é fundamental adoptar uma atitude de escuta e abertura com as várias pessoas implicadas, tentando perceber o seu discurso que nem sempre é clarificado.
Etapa 3 – A Problemática
A forma ou a perspectiva teórica que o investigador decide adoptar para tratar o problema da pergunta de partida, constitui a problemática. Ou seja, interroga-se “como vou abordar este fenómeno?”. Para elaborar a problemática é necessário:
· Fazer um balanço geral do trabalho exploratório, estabelecendo problemáticas possíveis;
· Escolher uma orientação, adoptando um quadro teórico que seja conveniente ao problema e sobre o qual se tenha um domínio suficiente;
· Explicitar o quadro conceptual que caracteriza esta problemática .
Etapa 4 – A Construção do Modelo de Análise
Esta fase é o ponto de junção entre a problemática levantada pelo investigador e o trabalho de análise, é o conjunto estruturado e coerente de conceitos e hipóteses articulados entre si. Sendo que, os conceitos, são uma construção abstracta que pretendem dar conta do real, não comportando todos os aspectos da realidade em questão, mas sim o essencial, com uma dimensão que pode ser mensurável.
As hipóteses, sendo proposições aceites como ponto de partida para deduzir delas consequências lógicas, têm como fim principal serem submetidas a verificações metódicas pela experiência.
Etapa 5 – A observação
Ao longo desta etapa são reunidas numerosas informações, permitindo o confronto entre o modelo de análise e os dados observáveis. Na observação, o importante não é apenas recolher informações que traduzam os conceitos (através dos indicadores), mas também, que essas informações permitam a verificação das hipóteses.
Observar o quê?
Dados pertinentes que sejam úteis à verificação das hipóteses;
Observar em quem?
Delimitando o campo de observação (no espaço e no tempo);
Observar como?
Concebendo e testando um instrumento que forneça informações capazes de testar as hipóteses.
Etapa 6 – A Análise das Informações
A etapa que trata da informação obtida através da observação, para, ao apresentá-la, poder comparar os resultados observados com os esperados a partir das hipóteses. Primeiro descrevem-se os dados, depois medem-se as relações entre as variáveis, comparando os resultados obtidos com os esperados e a diferença entre ambos.” (…) Se for nula ou muito fraca, pode-se concluir que a hipótese é confirmada; se não, tem que se ver a origem da discrepância e tirar as conclusões adequadas (…).
Etapa 7 – As Conclusões
A etapa de conclusão num processo de investigação deve contemplar uma retrospectiva do procedimento que foi adoptado, desde a apresentação da última formulação da pergunta de partida à comparação entre resultados esperados e observados. Em seguida, fazer uma apresentação sobre os novos conhecimentos relativos ao objecto estudado.
Nota: No caderno TICG – vol.2, está contemplada uma oitava fase, que visa a publicação e divulgação por parte do investigador após a conclusão do trabalho de investigação, dos seus resultados.


Bibliografia
Caderno TICG, vol. 2 – Capítulo 2.
Quivy, Raymond; Campenhoudt, Luc van (2008) – Manual de investigação em ciências sociais. Lisboa: Gradiva (5ª ed.). 282p. ISBN 978-972-662-275-8.
Quivy, R. & Campenhoudt, L. – 3 esquemas.
Dicionário da Língua Portuguesa (2004). Porto: Porto Editora. ISBN 972-0-01131-9.